CRÔNICA DO COBRE
Ibaiti virou Tombstone? Os “sofisticados” ladrões de cabos e a corrida pelo cobre
Entre fios cortados, prejuízos e madrugadas movimentadas, o velho Oeste parece ter encontrado uma versão moderna em Ibaiti.
Publicado em
14/08/2026 às 13:45
Atualizado em
Ibaiti não fica no Arizona. Não tem deserto, saloon ou duelo ao meio-dia. E, até onde se sabe, ninguém anda por aqui com um revólver na cintura para resolver problemas.
Mas há algo curiosamente familiar na história.
Nos últimos dias, os furtos de cabos elétricos voltaram a chamar atenção no município. E quando uma cidade começa a perder fios, equipamentos e estruturas para quem busca cobre, fica difícil não imaginar que algum roteirista de faroeste resolveu mudar o cenário.
Sai o deserto.
Entra Ibaiti.
Sai o cavalo.
Entra o alicate.
E, no lugar do ouro, aparece o cobre.
UMA CIDADE CHAMADA TOMBSTONE
Para quem não conhece, Tombstone é um filme de faroeste lançado em 1993, inspirado em personagens reais do Velho Oeste americano. Na história, a cidade de Tombstone, no Arizona, convive com os "Cowboys", um grupo de fora da lei, enquanto personagens como "Wyatt Earp, seus irmãos e Doc Holliday" entram em cena para enfrentar a criminalidade e tentar colocar ordem na cidade.

A comparação com Ibaiti, obviamente, termina aí.
Não estamos dizendo que vivemos um Velho Oeste, nem que alguém deveria sair por aí procurando um Wyatt Earp paranaense.
A graça está justamente no contraste.
Porque, enquanto Tombstone ficou conhecida pelos seus pistoleiros, Ibaiti parece estar ganhando uma espécie de versão contemporânea dos “Cowboys”: homens que não estão interessados em cavalos, bancos ou diligências.
Eles querem cabos.
E, aparentemente, têm uma preferência bastante específica pelo cobre.
O NOVO “OURO” DO OESTE
O cobre não é novidade. É um material valorizado e amplamente utilizado em instalações elétricas e industriais.
O problema começa quando alguém decide que a maneira mais rápida de conseguir esse material é simplesmente cortar o que pertence aos outros.
E aí o prejuízo deixa de ser apenas de quem teve o cabo levado.
Pode faltar iluminação, serviços podem ser interrompidos, estruturas precisam ser reparadas e, no fim das contas, a conta pode chegar de uma maneira ou de outra para toda a comunidade.
É o tipo de crime que parece pequeno quando visto apenas como “um pedaço de fio”.
Mas deixa de parecer pequeno quando esse pedaço de fio é justamente o que mantém uma estrutura funcionando.
E QUEM COMPRA?
Aqui está a parte menos cinematográfica — e talvez a mais importante.
O ladrão pode carregar o alicate.
Mas alguém precisa transformar o cobre em dinheiro.
E essa pergunta merece investigação: qual é o caminho percorrido pelo material depois que ele desaparece?
Não se trata de acusar comerciantes ou empresas que trabalham legalmente com reciclagem e sucata. Aliás, quem atua corretamente também tem interesse em que o mercado clandestino seja combatido.
A questão é outra.
Se existe mercado para o material furtado, existe um incentivo para que novos furtos aconteçam.
É uma lógica simples: alguém corta, alguém compra, alguém lucra e alguém fica com o prejuízo.
CADÊ O WYATT EARP?
Calma. Não precisamos convocar pistoleiros nem marcar um duelo ao meio-dia na Rua Paraná.
O nosso faroeste pode — e deve — ser resolvido com ferramentas bem mais modernas.
A Polícia tem a missão de investigar os furtos, identificar os envolvidos, prender os responsáveis quando houver elementos para isso e, principalmente, buscar respostas também sobre o destino do material levado.
A Prefeitura pode contribuir com aquilo que está ao seu alcance: fiscalização, melhoria da iluminação pública, instalação e utilização estratégica de câmeras e reforço do monitoramento de pontos mais vulneráveis.
A Câmara Municipal, por sua vez, pode exercer seu papel de fiscalização, cobrar providências do poder público e acompanhar os resultados das medidas adotadas. Afinal, cobrar respostas também faz parte do trabalho de quem representa a população.
As empresas e proprietários de instalações também podem reforçar a segurança de seus equipamentos, adotando medidas preventivas que dificultem a ação dos criminosos.
E a população não precisa vestir o colete do xerife. Seu papel é observar, comunicar movimentações suspeitas às autoridades e colaborar com informações, sempre sem tentar abordar ou enfrentar suspeitos.
Mas existe ainda um personagem que não pode ficar fora dessa história: quem compra o material furtado.
Porque o ladrão pode ser quem aparece com o alicate na mão, mas é o comprador que transforma o cabo roubado em dinheiro. Sem um mercado disposto a receber material de origem criminosa, o chamado “ouro dos Cowboys do Cobre” perde boa parte do seu valor.
É aí que o nosso faroeste precisa deixar de ser apenas uma comparação divertida e passar a ser uma questão de responsabilidade coletiva.
No filme, Tombstone precisou de Wyatt Earp e Doc Holliday para enfrentar seus fora da lei.
Ibaiti não precisa de pistoleiros. Precisa de Polícia, Prefeitura, Câmara, empresas e população trabalhando na mesma direção.
Porque segurança não se resolve com um herói solitário.
E talvez esteja na hora de os nossos “Cowboys do Cobre” descobrirem que, por aqui, o Velho Oeste já acabou faz tempo.
No cinema, quando aparecem os bandidos, a gente pega a pipoca.
Em Ibaiti, quando desaparecem os cabos, quem acaba pagando a conta é a população.
O FAROESTE DO COBRE
Talvez a comparação com Tombstone seja exagerada.
E é justamente por isso que funciona.
Porque, no cinema, os “Cowboys” fazem parte da história. Em Ibaiti, quando os cabos desaparecem, a história é outra: alguém tem o patrimônio danificado, alguém precisa reparar, algum serviço pode ser afetado e, no fim da conta, a população também sente o prejuízo.
Por isso, a pergunta que fica não é apenas quem está com o alicate na mão.
É quem está comprando, quem está lucrando e por que ainda existe mercado para esse material?
Talvez seja aí que esteja a parte mais importante dessa história.
No Velho Oeste, a cidade precisava de homens dispostos a enfrentar os fora da lei.
Ibaiti não precisa de Wyatt Earp.
Precisa de investigação, fiscalização, prevenção, segurança e, principalmente, de diferentes setores trabalhando juntos para que o crime não encontre terreno fácil.
Porque, se os “Cowboys do Cobre” descobriram uma nova maneira de fazer dinheiro, a cidade também precisa descobrir novas maneiras de impedir que isso continue.
E que fique o aviso aos roteiristas desse faroeste: em Ibaiti, o cobre pode até valer dinheiro. Mas a cidade não está à venda.
Porque filme de faroeste a gente assiste.
Faroeste na rua, ninguém merece.
Fonte: Portal da Cidade de Ibaiti
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